Eu vejo com frequência pessoas que chegam dizendo a mesma frase: “A dor fica bem do lado do quadril”. Em muitos casos, o problema não está dentro da articulação, mas nos tendões que ajudam a estabilizar a pelve e mover a perna. Entre essas causas, a tendinopatia dos glúteos é uma das fontes mais comuns de dor lateral no quadril.
Esse quadro costuma afetar a rotina de forma silenciosa. Primeiro incomoda ao deitar de lado. Depois surge ao caminhar, subir escadas ou ficar muito tempo em pé. Quando não recebe atenção, pode limitar bastante os movimentos e reduzir a confiança para atividades simples do dia a dia.
Neste texto, eu vou explicar o que é essa lesão, quais são os sinais mais comuns, como faço o raciocínio do diagnóstico e quais tratamentos costumam trazer bons resultados.
O que é a tendinopatia dos glúteos?
Quando falo em tendinopatia na região lateral do quadril, estou me referindo, em geral, aos tendões do glúteo médio e do glúteo mínimo. Eles se inserem no grande trocânter, uma saliência óssea na parte lateral do fêmur. São estruturas que trabalham o tempo todo para estabilizar a pelve durante a marcha.
O glúteo médio tem papel forte na estabilidade ao caminhar, enquanto o glúteo mínimo ajuda na abdução e no controle fino do quadril.
Esses tendões podem sofrer degeneração, inflamação associada, microlesões por repetição ou até rupturas parciais e completas. Nem sempre existe um trauma claro. Muitas vezes, a dor aparece após meses de sobrecarga acumulada.
Nem toda dor lateral no quadril vem da articulação.
Na minha experiência, esse é um ponto que gera confusão. Muita gente pensa logo em artrose ou em “desgaste do osso”, mas a origem pode estar nos tecidos ao redor do quadril. Em alguns casos, até coexistem problemas diferentes. Se você quiser entender melhor quando a dor tem relação com desgaste articular, vale ver este conteúdo sobre artrose de quadril, causas, sintomas e tratamento.
Quais sintomas costumam aparecer?
O sinal mais típico é a dor na lateral do quadril, sobre a região do trocânter. Ela pode ser pontual ou irradiar para a face lateral da coxa. Em fases iniciais, aparece em esforços. Depois, pode surgir até em repouso.
Os sintomas que eu mais observo são os seguintes:
- Dor ao deitar sobre o lado afetado;
- Incômodo ao subir escadas ou rampas;
- Dor após caminhada prolongada;
- Sensação de fraqueza ao apoiar o peso em uma perna;
- Piora ao levantar da cadeira ou sair do carro;
- Sensibilidade ao toque na lateral do quadril.
Alguns pacientes contam uma história bem típica. Pararam de dormir bem porque qualquer pressão no lado dolorido desperta durante a noite. Outros dizem que mancam no fim do dia, mesmo sem lembrar de ter sofrido lesão.
A limitação funcional é tão relevante quanto a dor, porque ela altera a marcha, reduz a mobilidade e piora a qualidade de vida.
Por que esse problema acontece?
Não existe uma causa única. Em geral, há uma combinação de fatores mecânicos e biológicos. Eu costumo pensar na tendinopatia glútea como resultado de um tendão que perdeu capacidade de suportar carga do jeito certo.
Entre os fatores de risco mais comuns, destaco:
- Desequilíbrios musculares entre quadril, pelve e tronco;
- Fraqueza dos abdutores do quadril;
- Sobrecarga por corrida, caminhada excessiva ou treino mal ajustado;
- Alterações posturais e desalinhamentos nos membros inferiores;
- Envelhecimento do tendão, com perda de resistência;
- Ganho de peso e aumento da carga sobre a região;
- Histórico de dor lombar ou alterações na mecânica da marcha.
Eu também observo muitos casos em pessoas que começaram atividade física sem progressão adequada. O corpo até tenta se adaptar, mas o tendão responde com dor quando a carga sobe rápido demais.
Quem pratica esportes deve prestar atenção a esse ponto. Para quem quer entender melhor como reduzir lesões nessa região, existe um bom complemento em prevenção de lesão no quadril nos esportes.
Tendinopatia e bursite trocantérica são a mesma coisa?
Não. Mas elas podem andar juntas, e isso gera muita dúvida. A bursite trocantérica envolve a bursa, uma pequena bolsa com líquido que reduz o atrito entre tendões e os tecidos ao redor. Já a tendinopatia atinge os tendões dos músculos glúteos.
A bursite trocantérica e a tendinopatia glútea podem causar dor parecida, mas afetam estruturas diferentes.
Na prática, muitas pessoas recebem o rótulo de bursite quando, na verdade, o principal problema está no tendão. Em outros casos, a inflamação da bursa aparece como consequência do atrito gerado por um tendão doente. Por isso, eu evito conclusões apressadas sem exame físico bem feito.
Esse cuidado muda o tratamento. Se eu trato apenas a dor e não corrijo a falha mecânica do quadril, o quadro tende a voltar.
Como faço o diagnóstico?
O diagnóstico começa na conversa. Eu procuro entender quando a dor começou, em que situações piora, se existe limitação para dormir, caminhar ou praticar exercícios, e se houve aumento recente de carga física.
Depois vem o exame físico, que faz muita diferença. Em geral, avalio:
- O ponto exato da dor à palpação na lateral do quadril;
- A força dos músculos abdutores;
- A marcha e o apoio em uma perna só;
- A amplitude de movimento do quadril;
- Testes provocativos para diferenciar dor tendínea, bursite e dor articular.
Muitas vezes, o paciente entra no consultório com uma hipótese e sai com outra. Isso é mais comum do que parece. Dor lombar, artrose, lesões intra-articulares e até compressões nervosas podem simular esse quadro.
Quando preciso confirmar o grau da lesão ou afastar outras causas, peço exames de imagem. A ressonância magnética costuma ser a mais útil.
A ressonância magnética ajuda a mostrar inflamação, degeneração do tendão, rupturas parciais e alterações associadas da bursa.
Em alguns contextos, a ultrassonografia também pode colaborar, mas a ressonância costuma oferecer uma visão mais completa da região.
Como é o tratamento conservador?
Na maior parte dos casos, o tratamento começa sem cirurgia. E eu diria que esse é o caminho que mais resolve, desde que haja constância e ajuste da carga.
O primeiro passo é controlar os movimentos que agravam a dor. Isso não significa parar tudo, mas adaptar. Caminhadas longas, corrida, subir escadas em excesso e dormir sobre o lado afetado costumam piorar bastante no início.
Depois, entra a fisioterapia com foco em reequilíbrio muscular e melhora da mecânica do quadril. Eu gosto de reforçar que não basta “descansar o tendão”. É preciso recuperar sua capacidade de suportar carga.
O tratamento conservador pode incluir:
- Fisioterapia com exercícios progressivos;
- Fortalecimento de glúteo médio, glúteo mínimo, core e pelve;
- Alongamentos bem indicados, sem exagero;
- Controle da dor com medidas analgésicas e anti-inflamatórias quando cabíveis;
- Ajuste das atividades físicas e da forma de caminhar ou treinar;
- Orientação postural para reduzir compressão sobre os tendões.
Eu faço uma ressalva sobre alongamento. Nem todo paciente melhora com alongar mais. Em algumas fases, posições que comprimem os tendões contra o trocânter podem piorar o quadro. Por isso, a prescrição precisa ser individual.
As infiltrações podem ser usadas em casos selecionados, sobretudo quando a dor está impedindo a reabilitação. Mas eu prefiro indicar com critério. O alívio pode ajudar, porém não substitui a correção da causa mecânica.
Aliviar a dor sem fortalecer o quadril costuma ser pouco.
Quando a cirurgia pode ser indicada?
A cirurgia costuma ser reservada para situações em que o tratamento conservador falhou após um período adequado, ou quando há ruptura significativa dos tendões com perda funcional. Isso é menos comum, mas acontece.
Eu penso em tratamento cirúrgico, em geral, quando encontro uma ou mais destas situações:
- Dor persistente apesar de fisioterapia bem conduzida;
- Fraqueza relevante com dificuldade para caminhar;
- Ruptura parcial extensa ou ruptura completa;
- Retração tendínea e piora funcional progressiva.
Os procedimentos variam conforme o caso. Pode ser feito reparo do tendão, retirada de tecido degenerado, tratamento da bursa associada e, em alguns pacientes, reconstrução com técnicas específicas quando a lesão é maior.
A indicação cirúrgica depende da intensidade dos sintomas, do exame físico e do grau de lesão visto na imagem.
Hoje, parte desses procedimentos pode ser realizada com técnicas menos invasivas, mas isso depende da anatomia da lesão e da experiência da equipe. O ponto principal é que a cirurgia não encerra o processo. A recuperação exige reabilitação bem orientada.
Como prevenir novas crises?
Prevenir passa por fortalecer, corrigir padrões de movimento e respeitar a progressão do esforço. Eu costumo dizer que o quadril tolera muito trabalho, desde que a carga aumente de modo gradual.
Algumas medidas ajudam bastante:
- Manter fortalecimento regular de glúteos e tronco;
- Evitar aumento brusco de treino;
- Corrigir alterações posturais e mecânicas;
- Ajustar calçados e rotina esportiva quando necessário;
- Não insistir em dor lateral persistente por semanas.
Quem já teve esse tipo de lesão sabe como ela pode voltar se a causa de base não for tratada. Para muitos pacientes, entender melhor o cuidado com dor e mobilidade faz diferença no longo prazo, e isso aparece em conteúdos como tratamentos para dor e mobilidade e também na página sobre tratamentos ortopédicos.
Recuperação e retorno às atividades
Eu gosto de ser direto neste ponto. Não existe volta segura às atividades sem melhora da dor, recuperação da força e controle do movimento. A pressa costuma prolongar o problema.
O retorno é progressivo. Primeiro, o paciente volta a caminhar sem mancar. Depois recupera tolerância a subir escadas, exercícios de força e, só então, atividades de maior impacto, quando isso faz parte da rotina.
Se houver dúvida sobre avaliação mais específica da dor lateral do quadril, a busca por um especialista em quadril em Porto Alegre pode ajudar a definir o melhor caminho.
Com diagnóstico correto e tratamento bem conduzido, a maioria dos pacientes consegue reduzir a dor e retomar sua rotina com segurança.
Eu já vi muitos casos em que a pessoa conviveu por meses com uma dor lateral no quadril, achando que era algo simples e passageiro. Quando o problema é reconhecido cedo, a recuperação tende a ser mais tranquila. Por isso, diante de sintomas persistentes, vale procurar acompanhamento profissional para tratar a causa, recuperar a função e voltar às atividades com confiança.